terça-feira, 31 de maio de 2011

31.05.2011 - Familiares das vítimas da escola de Realengo se dizem abandonados pelo Poder Público


Quase dois meses após a tragédia e com os holofotes da mídia já há muito apagados, pais, mães e parentes das vítimas do massacre da Escola Tasso da Silveira, em Realengo, se viram obrigados a lançar um movimento por justiça, e por medidas efetivas que coíbam novas tragédias, para que as promessas feitas pela Prefeitura, em meio à comoção nacional, sejam de fato postas em prática.
“É um descaso... além das vítimas [fatais], as vítimas que não foram fatais não estão tendo apoio da Prefeitura”, desabafa André da Silva Machado, de 40 anos, pai de Luiza Paula, uma das 12 crianças mortas pelo atirador que invadiu uma sala da Escola Tasso da Silveira, na manhã de 7 de abril de 2011, uma quinta-feira.  Para marcar os dois meses do crime, homenagear as vítimas e tornar público o desprezo com que as famílias estariam sendo tratadas pelas autoridades, os familiares preparam uma passeata para o dia 7 de junho, com concentração ao meio-dia na Central do Brasil. De lá, pretendem caminhar até a sede da Prefeitura, na Cidade Nova.
Segundo André, os familiares das vítimas vêm se reunindo em Realengo para buscarem forças para enfrentar a dor da perda e para juntos cobrarem respostas do Poder Público. Ele e o ex-soldado especializado da Aeronáutica Robson Moreira Atanázio, pai de Larissa, outra vítima fatal, que integra o movimento pela reintegração às Forças Armadas, estiveram no Sindsprev-RJ para solicitar apoio à luta dos familiares, no que foram atendidos.
Relatam uma situação de abandono. As assistências médica e psicológica limitam-se ao que todo brasileiro já tem: o Sistema Único de Saúde, sem nenhuma estrutura adicional. Eles foram orientados a procurar a Clínica da Família, em Padre Miguel, onde recebem o mesmo tratamento, segundo eles, que já receberiam caso se dirigissem a um posto público. “Qualquer um que chegue lá vai ter o mesmo atendimento, já é um direito pelos impostos que nós pagamos, não estão dando nada”, afirma André.
Os familiares também dizem que o prefeito não os recebe. Havia uma reunião previamente marcada para a semana passada, mas Eduardo Paes não apareceu. No final de semana, porém, com a ida dos familiares aos jornais, o prefeito do Rio teria declarado a intenção de recebê-los, embora isso ainda não tenha sido oficialmente confirmado. “Soubemos pela televisão”, diz André.
Segundo Robson, os familiares e amigos das vítimas têm uma pauta de reivindicações que vai além da assistência hospitalar. Eles querem medidas que deem condições de segurança nas escolas, serviços de primeiros socorros, escadas de emergência nas unidades e até coisas básicas e exigidas pela lei como extintores que funcionem e brigadas de combate a eventuais incêndios. Também cobram atenção para as vítimas não fatais – e citam o caso de uma menina, cuja irmã foi morta no massacre, que tem uma bala alojada na cabeça e que, para fazer sessões de fisioterapia no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), é obrigada a se deslocar de ônibus de Realengo ao Centro do Rio, e a caminhar mais de um quilômetro para economizar uma segunda passagem, porque a Secretaria de Saúde não lhe oferece transporte. “Perguntaram se ela estava andando, como a família informou que sim, disseram que não podiam fazer nada”, diz Robson. Para ele, é obrigação do Poder Público dar a devida atenção às famílias, destroçadas pela tragédia. “Nós entregamos nossas filhas vivas para estudar, eles nos devolveram nossas filhas mortas”, diz.